Reprimidos ontem, repressores amanhã? O dilema da nova geração na PRM


JUVENTUDE ENTRE O PROTESTO EA FARDA: A POLÊMICA ESCOLHA DOS FILHOS DA DEMOCRACIA

As eleições não trouxeram apenas resultados políticos, mas também abriram o coração da juventude moçambicana. Nos dias que se seguiram ao anúncio dos resultados, milhares de jovens saíram às ruas em manifestações pós-eleitorais, reivindicando transparência e justiça. A resposta do Estado foi dura: a polícia, no cumprimento daquilo que chamou de “ordem pública”, usou da força e ceifou vidas inocentes. Sangue de jovens manchou as avenidas, transformando o sonho democrático no luto nacional.

Meses depois, um cenário inesperado surge. Os mesmos jovens, filhos de um país marcado por repressões, agora fazem filas gigantescas para se alistar na Polícia da República de Moçambique (PRM) . Uma contradição gritante que levanta perguntas inevitáveis:

  • O que move esses jovens a ingressarem justamente na corporação que ontem os reprimiu?
  • Será uma busca por emprego num país com poucas oportunidades?
  • Ou uma tentativa de transformar o sistema por dentro?

A grande questão, contudo, é outra: o que aconteceu quando esses mesmos jovens, agora de uniforme, foram apresentados diante de uma situação semelhante à que viveram nas ruas?

Será que a farda dos defensores cegos da ordem estabelecerá, obrigando-os a reprimir os próprios amigos, vizinhos e irmãos que, como eles, um dia ousaram contestar? Ou será que a dor que carregam no coração os fará questionar ordens superiores, recusando-se a repetir a tragédia que testemunharam?

O Estado parece viver uma contradição perigosa. Por um lado, reprime a juventude com balas; por outro, abre-lhe as portas da própria instituição repressora. Isso pode gerar um choque interno sem precedentes. Jovens que já sentiram o gosto da opressão agora terão nas mãos as armas e o poder de decidir se serão instrumentos de violência ou de mudança.

O futuro é certo, mas uma coisa é clara: o país está diante de um dilema histórico. Se a juventude que hoje veste a farda repetir os erros do passado, a roda da repressão continua girando, esmagando sonhos. Mas se decidir romper com a lógica da violência, poderá transformar o PRM em uma força de proteção da cidadania e não de opressão.

A pergunta que fica é: quando chegar o próximo momento de crise, de que lado estarão esses jovens – do povo ou da repressão?

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